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Oftalmologia

por cincodiasuteis, em 08.08.14

Ver


A mulher e a criança pararam frente a uma fonte.         
Usavam roupas sujas em cima dos corpos magros; a criança chorava, queixava-se, com insistência, de ter sede.           
A mulher observou durante alguns minutos um casal de namorados, que se beijava com energia junto à fonte. Pegou na mão da criança - ela não parava de chorar - e seguiu caminho.           


Não ver              

A menina morava numa rua conhecida por ter gatos de muitas raças, raças de todo o mundo.
Alguém apostou no turismo; cortou o trânsito, organizou visitas, chamou televisões...               
A menina deixou de ver na rua os cãos aterradores do vizinho de baixo. Teve muito medo.           


Ver bem

O pó denuncia um pequeno desequilíbrio. Com o gume sobre a mesa o velho arrasta os químicos. Tenta uns cálculos enquanto as partículas brancas colam-se-lhe aos dedos. Mais cálculos. Respira fundo se vê uma migalha de pão; conta até dez se dá com um pequeno grão de açúcar. Há sempre alguma cura que fica agarrada à faca e depois, de novo, aos dedos trémulos do velho, de dedo em dedo, testando a sua paciência de doente. Desiste e grita. Uma correria de nervos desce-lhe ao punho: dá dois murros na mesas e as duas partes desiguais saltam para o chão. O velho sai para fumar um cigarro.                

O senhor doutor receitara-lhe metade de um comprimido.      
O senhor doutor dissera-lhe que ficaria curado desde que tomasse uma metade daquele comprimido todas as manhãs.                              
Passado um tempo o velho morreu por não cumprir o tratamento. 

 

António Trindade Vieira

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