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Olá! Está tudo bem?

por cincodiasuteis, em 29.07.14

Um diálogo completo:

- Olá! Está tudo bem?
- Tudo bem. E tu?
- Também.

Isto entedia-nos. Mesmo se a conversa for com alguém com quem não falamos há algum tempo e de quem sentimos saudades, isto entedia-nos. Este cumprimento, se não se desdobra num diálogo que nos estimule, aborrece-nos de morte. Se uma pessoa quer fazer coisas no nosso tempo tem de vir para desequilibrar, não apenas para perguntar se está tudo bem.


Só um apaixonado não pede mais:

- Olá! Tudo bem?
- Tudo bem. E tu?
- Também.

- Vi-te há bocado.
- A sério? 
- Sim. Estavas a comer um chocolate.


Oh, como isto agita a alma de tantos! Um cumprimento sóbrio, seguido de grandes silêncios entre pequenas banalidades que avançam como pedras de xadrez, ficando a pairar sobre duas chávenas de café, enquanto lá fora a chuva, e por aí adiante, tudo desenhado a tensão sexual.

Tudo o que seja menos do que isto (ou, como eu acredito, mais) é entediante.

Se alguém nos pergunta se está tudo bem, recorrentemente, sem dizer mais nada, sem querer saber mais nada, está a ter o desplante de vir interromper a marcha animada que queremos que seja o nosso dia. Não me refiro a alguém que queira algo material em troca, um favor profissional; não se trata sequer de alguém que queira iniciar uma história de amor ou de amizade connosco. Os piores tornaram-se aqueles que nos cumprimentam gratuitamente; são esses que mais nos aborrecem, são esses que mais nos incomodam – nada é mais desprezível hoje em dia do que aquilo que provoca aborrecimento (um grande mal deste tempo). Passam a ser "os chatos"; tendo uma definição, ganham um uso: servem para animar as boas conversas, aquelas que se desdobram bem, cheias de estímulos - e um desses estímulos passa a ser precisamente fazer troça do "chato" que pergunta todos os dias se está tudo bem. Serei sempre um apaixonado por Seinfeld, mas não quero viver como o Jerry e os amigos. 

Talvez o "chato" nos dê o melhor que tem (temos) para dar; uma simpatia gratuita tem uma importância que, julgo, ainda estamos longe de conseguir compreender.

- Olá! Está tudo bem?
- Tudo bem. E tu?
- Também.

É preciso saber ver uma mão estendida, saber perceber um abraço que se reprime. Não culpemos as palavras, mas sim o nosso automatismo, o nosso alheamento, a nossa falta de sensibilidade para perceber o que tem o mais simples dos cumprimentos.

 

 

António Trindade Vieira

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