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Olha o preconceitozinho!

por cincodiasuteis, em 20.10.14

Ando desde há uns tempos para falar de preconceito. Tinha já o texto mais ou menos idealizado na minha cabeça até que, ontem, aconteceu uma situação que veio mesmo a propósito e exemplifica tudo aquilo que eu queria dizer.

 

Vinha do Alentejo e era hora de jantar, então decidi parar em Vendas Novas para comer bifanas (já lá vi o Mário Nogueira com o bigode cheio de mostarda, mas isso fica para outra ocasião). O café estava com imensa gente. Ao ponto de haver mais de 10 pessoas de pé à espera de que houvesse mesa para se poderem sentar. É um espaço grande. Deve ter capacidade para umas 60 ou 70 pessoas. Eu estava na esplanada e cá fora, entre outras pessoas, estava uma família de etnia cigana.  Aparentemente, estavam fartos de esperar e reclamaram com um dos empregados. Para além disso, não sabiam a diferença entre um prego e uma bifana e a mulher começou a discutir com o empregado aos berros. Nisto, mete-se o marido (suponho eu) e começa a dizer que é capaz de bater no rapaz que o está a atender e que faz e acontece. Passado um bocado, passa por eles outro empregado mais encorpado (com cabedal, como se costuma dizer) e o homem continuou aos berros até que o empregado lhe perguntou porque lhe estava a levantar a voz se, até ali, não tinha falado com ele e baixou automaticamente o tom. Quando o primeiro empregado voltou à esplanada, retomaram a gritaria e, lá dentro, havia mais ciganos que continuaram pelo menos caminho. Parecia que naquele café estavam a matar os porcos que metiam nas bifanas. Até que há um momento em que a mulher cá de fora diz “isto é racismo!” (sim, esta explicação toda foi para chegar aqui).

 

Há uma determinada tendência para que algumas pessoas de minorias achem que quando algo não lhes corre bem na vida é preconceito. Acredito piamente que passem por situações dessas, mas, se levarem com um raio em cima, é racismo do S. Pedro? Eu já fui mal atendido em alguns sítios. Decerto que não era preconceito contra os alentejanos, os magrinhos ou os caixas de óculos. Achar que se pode estar aos berros no meio de um café a ameaçar as pessoas e a incomodar toda a gente que está à volta e que também paga para estar ali só porque se é de uma minoria é ser-se preconceituoso consigo próprio e não perceber que são muito mais do que o preconceito e, portanto, não se devem respaldar nisso na forma como levam a vida.

 

Uma situação idêntica e a que já assisti com frequência é ver homossexuais fazerem piadas sobre a homossexualidade descontraidamente até que alguém heterossexual faz o mesmo e essa pessoa fica ofendida. Naturalmente que há a linha do respeito. Refiro-me a piadas sobre homossexualidade e não sobre homossexuais. Porque é que pertencer ou não à minoria afecta o nosso julgamento em relação ao preconceito? O conteúdo não é o mesmo? Nestes casos, porque é que importa mais o emissor do que o conteúdo?

 

Aposto que há pessoas que vão ler este texto e vão achar que é preconceituoso em relação aos ciganos e aos homossexuais (agora imaginem os homossexuais ciganos. Ficam na lama). Em lado nenhum eu disse que se comportam todos como nos exemplos que eu dei. A mensagem do texto é outra. Para quem vir preconceito nas minhas palavras só tenho a dizer: “olha o preconceitozinho!”.

 

Francisco Mendes

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