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Há precisamente um ano escrevia-te esta prenda. Como este ano também te quero escrever aguma coisa, até segunda-feira, dia do teu aniversário, limito-me a publicar aqui alguns excertos (não o texto completo, cheio de extensas notas de rodapé, à David Foster Wallace) do empreendimento que me ocupava os primeiros dias (úteis) de Setembro de 2013. 

 

 

A biografia segundo o apaixonado1



A ti, que me vais tirando palavras –
fazendo um homem.

 

  

 

Agora homem - com a mania de que era poeta - apaixona-se por ela.

Catarina Barroso

 


I


Sinto as tuas mãos dentro das minhas, aprisionadas na minha pele, brancas antes do osso; esta sensação de que as minhas mãos são só os uniformes sujos que as tuas usam para trabalhar, arrancar do papel palavras minhas, também só os uniformes sujos das tuas palavras, que se sabem conservar mais sem serem: quando te chegam aparentam uma gestação completa: estão melhor inacabadas. Descobre afinal que a folha de papel não é um símbolo de pureza; nenhuma folha sim. Tantas vezes o desejo de entrar dentro de ti; agora o desejo de te tirar cá de dentro para te devolver suja de pensamentos, memórias e emoções – tu necessariamente outra matéria. Não tenhas medo desta minha incapacidade de fugir ao corpo, mesmo quando tudo se passa sem incomodar a disposição da sala.        

– A tua cara de susto, em choque, quando corri na tua direcção, não para te empurrar, como pensaste, mas na esperança de me fundir a ti, depois de três passos de balanço, entrando no teu corpo como num portal, rasgando um véu líquido de todas as cores2, à ficção científica, com o desejo de ser nós em corpo e para sempre.      

Não tenhas medo; é de novo outra coisa. Se não nos soubesse imensos, não faria isto: temia esvaziar-me de ti. Continua comigo sem medo de nos perder.

 

1 O título era “Nasceste-me”, mas não quero ser citado nas redes sociais.

2 Nuno Costa Santos, escritor e argumentista português, não aprovou esta passagem; para ele está no limite do kitsch. Para atenuar o problema acrescentei “à ficção científica” (não me peças que te explique esta má solução).

 
António Trindade Vieira

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