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Há precisamente um ano escrevia-te esta prenda. Como este ano também te quero escrever aguma coisa, até segunda-feira, dia do teu aniversário, limito-me a publicar aqui alguns excertos (não o texto completo, cheio de extensas notas de rodapé, à David Foster Wallace) do empreendimento que me ocupava os primeiros dias (úteis) de Setembro de 2013.
Atenção: há por aqui frases tuas - convém dizer aos outros. 

O que há num nome?

  
Depois de três e uma preposição, a importância de ter o último. Ele reconheceu isso e assumiu o seu lugar no fim da linha, onde tantas vezes as letras parecem querer fugir – escondem-se numa translineação improvisada, levantam voo para fora da folha (aí as palavras podem não ser à vontade – descobre afinal que a folha de papel não é um símbolo de pureza; nenhuma folha sim) ou apequenam-se para caber lá, quase ilegíveis

   
Se fosse um nome usaria os limites de um formulário para se acobardar; mas é um homem, e o nosso espaço também está preparado para os cobardes, assim como para os corajosos – nem sempre com nomes diferentes. Mas em ti a robustez do apelido distingue-se por se confundir com a tua força... O que há num nome, afinal? Durante tempo a mais ele foi para ti só um nome – é só um homem.

O nome a cair e também os pratos, que acolhiam restos arrumados como se fosse o primeiro encontro, e a garrafa engravatada, cheia de gotículas no vidro provocadas pelo susto daquela voz a romper o restaurante: a mãe vai saber! Se és pai, não podes ser amante. Eu sei que o nosso nome já anda por aí a gatinhar. Mais um tempo e ele com os pés sei lá onde… Como se cada reprodução do nome o tornasse mais fino e quebradiço (os nomes são materiais que sofrem uma espécie de erosão – estão a acompanhar?), menos valiosos (a antroponímia é um ramo da economia, meninos!) E ele só de olhos na madeira da mesa que ficou à vista depois da vertigem de toalha que o empregado tentou ocultar por respeito ao senhor doutor, um cliente antigo cá da casa, um cliente com nome. Cheia de vergonha, a amante ficou com um pão entre os dedos, e os nervos construíram uma caverna de côdea que dava um belo esconderijo para os dois arrefecerem as faces; os olhos dela sempre no chão onde apareceu uma vela que não estava na mesa, ao gosto do autor; a mesma vela que naquele quarto, num dos primeiros encontros, ele insistia para que ela apagasse só com o indicador e o polegar – o segredo é não ter medo, meu amor. Faz como eu. Acreditem que esta mulher é só o que é; pudesse eu apagar esta paixão como a chama daquela vela; muito seguro, esmagá-la até ter nada entre os dois dedos. E posso, meus queridos!

A certa altura da vida uma mulher lembra-se de que ainda lhe falta chorar, como se a informassem de um inesperado subsídio. Lá para dentro da madrugada até a noite repousa; a escuridão envolve-se nas suas pernas como um gato preguiçoso que lhe retarda o caminhar; acende uma luz e deixa de se ver. (Escreves às escuras com medo de que ele te veja.) Naquele dia era mais cedo – lembrou-se de que ainda tinha de ser mãe durante um bocadinho; tarde demais: nem se apercebera de que regressava numa estrada com bermas, lugares para parar. Não esperava encontrar aquela escuridão, que lhe pareceu diferente: com sons e vozes – podemos dizer que uma escuridão é diferente com sons? Uma música torna-se outra à luz? Era diferente, mais completa, sem os habituais pontos vermelhos que a tingem de uma aparente quietude – mal ela sabe: os olhos das bestas que dormem naquela floresta de móveis. Tudo começa no bico de uma cegonha. Aquela zona ficou sem eletricidade. Do quarto ao lado esta história da cegonha não ensina nada. Não há gato cósmico hoje, minha querida. Podemos cantar. Olha, faz assim como se estivesses a esmagar a chama – tem de ser rápido! Boa noite. É lá agora irresponsabilidade… Ela não se queima se fizer como eu. Não entrou no quarto ao lado. Como a mãe era sempre avó, ela não tinha de ser mãe durante aquele bocadinho. Moedas e notas numa gaveta que abria num disparo; piis e encontrões de metal. Era um pacote de leite, mais um chocolate… Avó, deixa-me fazer as duas coisas, o pedido e a conta. Ojala mis sueños se hicieran realidad, se hicieran realidad porque tengo u-un monton. Espreitou para o quarto ao lado: aquela brincadeira dava-lhe uma visão intermitente das duas a cantar, a contrariarem o que ela ensinara à filha – luz, escuro, luz, escuro não, que fundes a lâmpada. Ojala mis sueños se hicieran realidade. Para isso diz assim baixinho: Pater noster qui es in caelis ou Ave Maria, gratia plena, Dominus tecum. Elas estavam bem;entrou noutro quarto ao lado e percebeu que o ar, mesmo no escuro, não se perdia entre duas janelas quando espirrou menos que o borraceiro de perfume que horas antes apontou ao seu pulso; deitou-se no embalo do atchim e o cheiro daquela almofada lembrou-lhe de chorar – eu sei que o nosso nome já anda por aí a gatinhar. Mais um tempo e ele com os pés sei lá onde…    
  
Minha querida, calça os sapatos; olha que te constipas!
Era um pacote de leite, mais um chocolate e este nome
:
P-A-I tem três letras, é barato.

 

António Trindade Vieira

 

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