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Há precisamente um ano escrevia-te esta prenda. Como este ano também te quero escrever aguma coisa, até segunda-feira, dia do teu aniversário, limito-me a publicar aqui alguns excertos (não o texto completo, cheio de extensas notas de rodapé, à David Foster Wallace) do empreendimento que me ocupava os primeiros dias (úteis) de Setembro de 2013.
Atenção: há por aqui frases tuas - convém dizer aos outros.

 

II

Sinto que adoeci10 de ti, da tua mãe e da tua avó. Apenas sinto, porque este vírus não é da vossa natureza (vós necessariamente outra matéria) – noventa por cento da sua substância tem, até agora, uma natureza feminina, sim, mas instável, menos física do que alguma vez nos podemos sentir: são três mulheres, uma só ou todas aquelas que conheci na vida? E a certo momento é possível que o vírus engorde e também contenha homens; todos à volta de um núcleo exíguo e mal definido, calculado pelo total de mim menos todas as vozes que me vieram integrar. Adoecemos desta massa de ecos porque precisamos da cura. Que gozo seria fazer uma cirurgia a mim próprio sempre que me sentisse invadido e ocupado! Desventrar-me para me curar diante dos meus olhos bem abertos. Ignoramos o estado em que ficamos depois deste triunfo da cura, e de imediato abrimos em simultâneo novas janelas dentro de nós.            
  
É esquizofrenia e eu confronto o senhor doutor; é esquizofrenia, não é, senhor doutor? Como quase tudo não é literatura, um dia também adoeci de ti – tu, matéria que desejo e admiro, que lês isto e que me fazes adoecer melhor de mim. O prognóstico do meu caso melhorou bastante, não melhorou, senhor doutor? Para nos lembrar que o amor é uma doença quando nele julgamos ver a nossa cura. O amor é uma doença quando nele julgamos ver a nossa cura. O amor é uma doença quando nele julgamos ver a nossa cura… Doutor? Já não gosto dessa canção. Pare de cantar, estou aqui à sua frente, não reparou? Sabe, nos últimos tempos, uma voz, adoro-te, adoro-te, a voz que ganha corpo, eu vi-o, tenho a certeza, depois da voz, a mão, ele deu-me a mão e depois, adoro-te mais e eu feliz e as vozes, todas dele, a nascerem e toda a gente à minha volta, ah, isso é amor, é amor, de certeza, não te preocupes, isso é só amor; e eu: não, não, é esquizofrenia - sabendo eles da minha doença e desvalorizando a minha cura; todo o amor é esquizofrenia - no final só sobram vozes sem…12 Ouça-a! O que é quem? Catarina, Catarina! Senhor doutor, pare de cantar! Eu quero perceber alguma coisa.  

 

10 Se me vir em apuros no mar para salvar isto do desbotamento e acabar num hospital, ficam aqui duas informações úteis ao senhor doutor. Ingiro 50 gramas de sertralinaa todos os dias para controlar uma ansiedade generalizada e uns ataques de pânico que me inspiraram isto e pouco mais (o que prova que a sanidade mental e física faz melhor aos bons textos do que à fama):       

   “O café cheio. Embora alguma mobilidade de vidro nas mãos, um caminho. Sem corpo para parar, a consciência de que sempre um caminho só depois de ir contra a alguém. Sorte: copo menos de meio vazio e menos de meio cheio - a crítica só fala de depuração e eu ainda com isto de menos de meio cheio e também com isto da crítica. Aquele bigode recortado e colado ali - só podia! Aquele bigode com a geometria que faltava no caminho que há sempre. Muito calmo, pesava na boca sofrida, que socorria-se dos olhos com os cantos dos lábios, como as mãos da amante nas suas costas antes de ter o bigode colado ali - esse tirano do rosto, único foco da minha atenção. Um copo de água, se faz favor. Sai um copinho de água! - ordenou o bigode, autónomo, de certeza; mais pelo -inho, até, mas de certeza que foi o bigode a ordenar. Um segundo e o copinho de água em cima do balcão. Tanta agitação na água que pedi para me acalmar - bolhinhas umas contra as outras ignoravam também que há sempre um caminho.”      

E sou também um indivíduo deficiente em G6PDHb – “Saiu-te a fava, Catarina” é só uma das muitas piadas que se podem fazer a partir de uma história que fica bem em qualquer jantar de família.            
Entretanto alguém que me explique o orgulho que temos em padecer de algo que só não nos matou por milagre.          
     

a Na Wkipédia: “O cloridrato de sertralina é um medicamento utilizado no tratamento da depressão. O mecanismo de ação é a inibição da recaptação da serotonina.”

b De novo na Wikipédia, porque a preguiça não me permite mais. (Confessar ou exibir um defeito atenua-o aos olhos dos outros? Sim, com algumas exceções. Na literatura acredito que um leitor exigente já não se deixa impressionar por um “porque a preguiça não me permite mais”, mas esta autoconsciência do autor não tem de ser sempre um mecanismo irónico.) “A deficiência em Glicose-6-fosfato desidrogenase (G6PD) é uma doença hereditária recessiva ligada ao cromossomo X que, frequentemente, desencadeia uma anemia hemolítica. (…) O consumo de favas, ou feijão de fava, leva o portador a desenvolver uma crise hemolítica; esta crise hemolítica antes era chamada de favismo.”

 

12 Tu, meu amor, Catarina Barroso, em “Esquizofrenia – os braços não crescem junto ao corpo.” Escrito num período em que eu queria escrever como o Lobo Antunes (agora luto contra ele; não é assim, Bloom?); numa só tentativa fizeste o texto definitivo das nossas imitações de Lobo Antunes. Também foi publicado originalmente no blogue “Mizocephalo” - http://mizocephalo.blogspot.pt/2013/01/esquizofrenia-os-bracos-nao-crescem.html

 

António Trindade Vieira

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