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B e K.
Revi-as no metro.
Abordaram um rapaz, pedindo licença para se sentarem perto dele. Reconheci logo aquela abordagem.

Ele deixou-as à vontade, claro; com um sorriso pouco sóbrio, pareceu-me surpreendido com tanta sorte, e a partir daí foi só sorrisos a avisar-me de que a sua imaginação seguiu sem rédeas. E como não? K tem uma daquelas caras que estão mesmo a pedir maus poemas, cheios de trigo, sol e mar; e B lembra-me uma actriz de um filme pornográfico que vi na adolescência, com uma testa ligeiramente alta, sinal de perversidade (talvez tenha lido isto num livro; não sei).

K é muito mais bonita que B, mas é B tem daqueles sorrisos que parece que ascendem aos lábios (de onde? Não sei, nem devo perguntar à minha imaginação, como talvez o rapaz do metro tenha feito).

Não sei porquê, mas K passava por hospedeira; tem uma expressão menos tensa, e a certa altura, também não sabemos porquê, ficamos à espera que ela que nos sirva um chá.

Reconheci logo a abordagem. Primeiro perguntam se se podem sentar ali, depois apresentam-se, e não demoram muito até que digam: segue-nos! Não sei quanto ao rapaz do metro, mas eu, jovem comprometido, fiel e crente, agarrei-me ao banco do comboio. Fiz-me da cor da roupa que não via. Temi a Deus.

Mas entretanto vim à tona para ouvir melhor.
Li nas camisolas Sister K e Sister B.
As nossas amigas são missionárias mórmon.

 António Trindade Vieira

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Não levem a mal, mas mais algumas notas

por cincodiasuteis, em 20.10.14
  1. Preocupo-me cada vez mais com uma espécie de verdade que deve emergir dos textos.
    Lido bem com a Margarida Rebelo Pinto, ainda que não seja seu leitor, pois não duvido de que ela faça as coisas de acordo com a sua verdade, com uma necessidade genuína de escrever.

    E falar desta verdade não é vir com mais relativismo, é uma tentativa de nos aproximarmos daquilo que vem realmente do coração literário dos outros.

    CAMPEONATO NACIONAL DE ESCRITA CRIATIVA: ÚLTIMA CHAMADA Sim: Chegou a hora de escreVIVER.

    Quando nos deparamos com coisas como esta percebemos porque é que ainda faz sentido falar dessa verdade, ou, pelo menos, falar de uma verdade mínima. Há tanta tralha em torno daquilo que algumas pessoa andam a escrever... Esta verdade tem que ver com a pergunta: afinal escrevo porquê? Prefiro não ouvir certas respostas. 

    Talvez precisemos de voltar aos diários antes de escrever alguma coisa para os outros. 

  2. Sinto-me escritor, mas posso sentir-me escritor sem o ser. 

    Sim, há Lobos Antunes e há delírios.

  3. Sinto-me deste tempo, do século XXI, quando me preocupo com o meu início de calvície ao mesmo tempo que me preocupo com o excesso de pêlos que tenho no resto do corpo. 

 António Trindade Vieira

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Os meus cadernos

por cincodiasuteis, em 09.10.14

Tenho escrito menos aqui. O desafio era escrever um texto todos os dias, de segunda a sexta, para me tornar mais disciplinado. Precisamente por andar a falhar, estou convicto de que o objectivo inicial tem de se manter.      
 
Além da disciplina, também preciso de treinar a organização. Sei que escrevi um bom texto algures, mas não o encontro. O que tenho escrito (muitos fragmentos) está em cadernos e em folhas que vêm não sei de onde. Ando com quatro cadernos na mochila; dois deles eram para escrever, mas entretanto todos perderam a função que lhes destinei. Para que me ajudem a ser uma pessoa mais organizada deixo aqui alguns exemplos daquilo que se pode encontrar em cada um deles.  

 

Caderno I - O Diário      

Obrigado, meu Deus. Dê-me saúde, força, paciência… Agarra na minha mão e faz-me um escritor.      

Abençoa a Catarina, os meus pais, a minha irmã e o João.       

7º plano capa c/ PROJECTO FIBRAS E FOTÕES DO ISEL

Tarde – almoço trazido de casa              

Spinoza, Leibniz, Swendenborg…

 

Caderno II - Ficções

Comtemplava os quadrados no chão sob os quais deixava confissões – os pais, sem saberem, pisavam os seus pecados.

orgulho dela /cartomante / músculos

“Para J. talvez fosse mais fácil, não só com a rapariga, mas também porque ela tem um misto de calor e frieza que é muito difícil de perturbar do exterior.

O TOLENTINO ESTÁ COM AR DE QUEM NÃO ESTÁ A CONCORDAR COM NADA!              

Senhora da Rocha – Armação de pêra

Lista de livros:

  • “A Herança Perdida”, James Wood
  • “O Génio”, Harold Bloom
  • “O grito”, Rui Nunes

Caderno III – Trabalho

Três bilhetes duplos para esta terça-feira           
Rosa Maria Castro 8055302

Trindade Vieira é o romancista lá da casa…

As tuas pernas não estavam cruzadas, mas ainda assim apenas os meus olhos.

Setembro – Dezembro 2014 A primeira novela – pouco estilo, seco

“Aqui jaz um verme”

Loucura – Lucília do Carmo

 

Caderno IV – Uma agenda improvisada

Entrevista – 26 de Setembro (Perguntar ao A. com quem!)       

“Enquanto eu associo estas imagens, um homem velho curva-se para um monte de areia.”

Quantos metros tinha Liev Tolstói?

Contos da Flannery – 9

Anna Karenina – 10

Melhores contos Orientais – 3, 4

 

E também comprei uma agenda a sério. Lembrei-me agora, quase um mês depois. Preciso de anotar em qualquer lado que tenho uma agenda.      

 

António Trindade Vieira

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Comecei a ler o "Diário Volúvel" de Enrique Vila-Matas, que é, como se sabe, um escritor de champions. Como sempre em Vila-Matas a literatura é2e,m x3j2r9e3o2 4iou232 488er4nenrbnewrf 4ewrbnbrtbre (Eu sei que ela quer o quentinho deste teclado QWERTY. Os gatos são caprichosos; não vale a pena, por isso, afastar o animal daqui.) hrfehthrhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhher4ejrb ewnrbwerbwerb (Naturalmente vai-se coçando e assim.),en 34jh23j4r3hjrb43 hrgbh42b3r3bewr4vb3ewvr bwe hhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh hhhhhhhhhhhhhhhhhhhh823726et6et6324 3483274ue3wkndr3m59r v4 ro24'vre3q4 5r (Já se sabe que os gatos são muito empenhados na sua higiene e, sim, também na formatação de texto. Por exemplo, a Nina não pode cheirar um texto que, como este, não esteja bem justificado.) mwebrc2gr4h wehr4 3ex1e c542rhj34hirewh4598n3485v34t4rjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjjj 

 

António Trindade Vieira

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nem parece, mas dois sms para Alda

por cincodiasuteis, em 03.10.14
  1. Esquecendo por instantes os limites lógicos que o axioma "tudo tem a mão de Deus" nos impõe, uma hipótese: tudo aquilo que o Homem criou tem já um correspondente na obra de Deus; as criações humanas são apenas réplicas mais ou menos boas de algo maior. Os próprios homens são também uma criação de Deus; assim a melhor arte é quando o homem cria correspondentes de si próprio. Talvez soframos de uma irresolúvel "angústia da influência" em relação a Ele. Antes de me deitar nesta cama, que, para mobília, até está cheia de qualidades - meu berço, também areia onde nos amamos -, já a tua boca era no tempo, estava gravada, mais perfeita do que isto; é esse conhecimento, contudo, que me deixa bem aqui deitado: os meus lábios conheceram esse modelo, essa criação divina, isto é, estiveram colados aos teus (sim, colados - o decoro fica-nos bem!), e agora ensinam o resto do meu corpo a sentir melhor a suavidade dos lençóis, a sua ambígua temperatura. Para mim a tua boca é o modelo da cama.


  2. Quando eu morrer vai ao funeral calada. Se te perguntarem algo, responde curto. Não chores; não te mostres afectada. Tenta ser a sombra vertical do meu silêncio. Se alguém atirar uma flor, imagina como ficaria orgulhoso por saber o nome dela. "Sei porque o meu pai plantava orquídeas lá na quinta, e gladíolos, dálias, petúnias... Estás a ouvir-me, meu amor?" Sê das primeiras a sair do cemitério; apanha um táxi. Fixa a nossa senhora, abstrai-te da nossa Cyndi Lauper, imagina o som que faz a minha pedra na primavera - só aí, provavelmente, ganharei jeito para a música. Quando chegares a casa reza-me um beijo com temor a Deus.

António Trindade Vieira

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Gratidão

por cincodiasuteis, em 30.09.14

Um amigo queixava-se no outro dia da sua falta de gratidão; ele quer ser grato, mas não se sente capaz.

Se pelo menos conseguisse ser grato... 

De onde vem essa necessidade? Não são muitos a sentir o mesmo, desconfio, mas parece-me, ainda assim, uma necessidade interessante, sobre a qual valerá a pena falar aqui.

Conheço muito bem o desabafo - sinto muitas vezes o mesmo. Temos conforto e oportunidades, mas não temos vontade, alegria no coração... (Sim, a expressão é mesmo esta; não deixem de ler.)

Há um sentimento de culpa com ou sem gratidão; o que a gratidão faz é tornar essa culpa positiva, ou seja, aponta-nos mais facilmente o caminho da diligência.
A gratidão traz responsabilidade, mas também traz energia para responder a essa responsabilidade - experimentem e verão que ela faz algo no corpo.

(De novo: as expressões são mesmo estas; não deixem de ler. Sei que neste momento o leitor já se sentiu incomodado com o tom de autoajuda. A propósito, haverá uma boa literatura de autoajuda? Ou melhor: entre muita tralha não se encontrarão também alguns ensinamentos certos? Estamos demasiado mergulhados no cinismo para pensar claramente sobre isso. Pensar, pensar muito, pensar bem, é o que proponho. O mal é este: ou as pessoas aceitam qualquer ajuda ou não aceitam ajuda nenhuma - eu basto-me.)

Também queremos agradecer quando chegamos à conclusão de que talvez seja melhor reduzir o apetite. Tenho isto, mas não me preenche; tenho isto. mas não me basta; tenho isto, mas não me deixa suficientemente motivado. A gratidão treina-nos a saciedade. 

E não conseguimos agradecer porquê? Não sei. Não é uma capacidade comum a todos. Mesmo com esforço, com vontade, muitos não chegam lá. Como a fé? 
Uma pergunta que pode ajudar na resposta: agradecer a quem? Aos nossos pais? Ao Estado? Ao Sport Lisboa e Benfica? Também, também, mas, no limite, não lhes podemos agradecer o tempo que temos, a vida. E a natureza, essa, não tem ouvidos.

(Sim, a resposta é essa em que estão a pensar; não fujam, não deixem de me ler.)

 

António Trindade Vieira 

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Caixa Alfama

por cincodiasuteis, em 29.09.14
  1. O Festival Caixa Alfama aconteceu no fim-de-semana passado, dia 19 e 20 de Setembro. 

    Ha os concertos, sim, mas há um pouco mais: este Festival é um meio de conhecer a cidade pela atmosfera. Algumas coisas ficam de fora, mas há suficiente Lisboa no ar para que se fique com uma ideia. 

  2. Numa rua, a cima das nossas cabeças, conversas entre janelas:

    - Esta gente vai aonde?
    - Acho que é para ver aquela Gisela. Está ali no Magalhães Lima.

    E valeu a pena (Maria da Fé, exactamente) ouvir a Gisela João. A par de todas as euforias há quem desconfie, e muito, de Gisela João; para esses, proponho que façam o seguinte teste: enquanto ela canta fechem os olhos e tentem responder à pergunta: neste momento lembro-me mais do que vai acontecendo no meu peito ou daquilo que sobre ela se diz na imprensa? Não vale tapar os ouvidos, claro. 

  3. Ricardo Ribeiro, o meu fadista preferido da nova geração, surpreendeu o público com imitações mais do que competentes de alguns fadistas: Tony de Matos, João Braga, Rodrigo, até António Zambujo, que se lhe seguia no palco... Foi engraçado, muito divertido, sim, mas para mim foi mais do isso, para mim aquele momento de imitações foi mais uma prova de amor ao fado dada por Ricardo Ribeiro, e provas de amor com bom humor emocionam-me quase sempre; assim, quando toda a gente se ria, eu também me ria ao mesmo tempo que me esforçava para não me comover.

  4. Só comecei a gostar dos fadistas de que mais gosto depois de algum tempo, depois de um período de resistência em que chegava mesmo a dizer que eles me irritavam. Depois, por algum motivo, a música certa no momento certo, uma actuação ao vivo, acabou por acontecer fado no meu ouvido - por vezes o nosso ouvido é incapaz; como num bom livro, lembrando-me daquilo que Lobo Antunes diz, temos de entrar com a chave do fado e não com a nossa. Aconteceu com Ricardo Ribeiro, por exemplo, e voltou a acontecer agora com Carminho.

    O que foi aquilo? A certa altura já nem nos lembrávamos da tal atmosfera de Lisboa; era tudo a voz de Carminho, imensa, ressonante, superior...
    (Algumas pessoas dizem "eu nem sou de me comover assim, não sou de chorar"; eu, que sou de me comover, digo que nem sou de adjectivos, mas...)

    Olhem para o pescoço dela enquanto canta: sob a pele de Carminho correm os seus glóbulos feitos minúsculos portugueses inquietos.  

    Há um ano achava que Carminho era só uma beta que cantava bem o fado. Hoje digo a mim próprio: da próxima vez que pensares assim experimenta abrir a boca e deitar cá para fora aquela quantidade de alma. Mete-te no lugar, Toni.   

    Esperemos pelo seu próximo disco, quase, quase a sair, sabendo que Carminho é a voz feminina mais forte do fado. 

    Gosto de escrever o nome completo dos grandes.
    Maria do Carmo de Carvalho Rebelo de Andrade. 
    Carminho é grande.

António Trindade Vieira

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Galveias

por cincodiasuteis, em 25.09.14

Gosto de passar algum tempo da minha vida em bibliotecas. Gosto muito de bibliotecas, como também gosto de algumas livrarias ou da pequena estante do meu médico; naturalmente uma boa biblioteca exerce sobre mim um fascínio maior, mas qualquer estante com livros desacelera-me o passo, nem que esteja cheia de maus livros, aliás, principalmente se for esse o caso. As lombadas hipnotizam-me - e, acreditem, preferia não escrever este tipo de frases... 

Nas bibliotecas públicas também me interessam as pessoas. (Os livros camuflam bem um observador, que passa por leitor. Também me acontece nos transportes públicos; e a certa altura dois escudos, sendo que, cada vez mais, um deles tem um casaquinho ridículo - não o meu, claro.) 


Costumo andar pelas bibliotecas públicas de Lisboa; posso garantir que são de Babel quanto ao número de pessoas que me hipnotizam mais do que lombadas. 

Sobre a mesa tinha a revista Time Out, um livro de contos da Flannery O'Connor (um espanto, já agora), uma garrafa de água de um litro e meio (quis, nesse dia, começar a beber essa quantidade de água, diz que a recomendada diariamente, mas concluí que muita água dá-me conta do sistema nervoso, o que, segundo as minhas pesquisas no Google, não é disparatado) e um caderno que comprei convencido de que seria ali que escreveria o meu "livro branco", o que não me aconteceu - e não me façam perguntas. 

À minha frente sentou-se um homem com um folheto na mão - "O que é a batalha do Armagedom?" -, dado, suponho por uma Testemunha de Jeová. Pousou-o na mesa juntamente com um livro de anatomia; um livro cheio de imagens de ossos rodeados de um bando de setinhas a apontar nomes, todos eles percorridos pelo sujo e gretado dedo indicador do homem. 

Estava mal vestido. Os seus olhos tinham para dar aos meus um forte aglomerado de finos vasos sanguíneos que lhes ocupava a superfície branca; além disso eram olhos que se retorciam sempre que havia algum barulho - e depois disso voltavam ao convívio dos meus um pouco mais dilatados (e talvez mais vermelhos).


No livro, ossos, ossos e mais ossos. 

 

Eu sustivera a respiração, embora estivesse a gostar (com medo) daquele quadro, ao qual acrescentei, na minha imaginação, um massacre, litros de sangue a salpicar a brancura dos ossos do livro.
Fiquei chateado porque perdera uma boa oportunidade de ver; o que deveria ter feito era uma observação mais tranquila.

Então fui à casa-de-banho comer um pêssego, porque de certeza que me acabaria por sujar com o sumo da fruta e precisava de água (ainda estava convencido de que a da garrafa ia ajudar-me a reduzir volume abdominal).
É uma bela casa-de-banho, com espaço, com luz.
Mas se, entretanto, alguém lá entrasse? 

Algum de vocês, por acaso, está a pensar escrever uma crónica sobre um tipo que come pêssegos na casa-de-banho da vossa biblioteca? Nem tu, estranho homem dos ossos?  

 

António Trindade Vieira

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Algumas notas sobre a chuva (em actualização...)

por cincodiasuteis, em 18.09.14

1. Os quadros românticos mais comuns na cabeça das pessoas são a chuva que molha como se nos vestisse ou, por outro lado, o ocaso de um dia de calor; estes quadros raramente se fazem de chuvas com vocação para assolar ou de asfaltos alagados de calor diante dos nossos olhos secos.

 

Não podemos ser românticos (ou poetas, ou filósofos) sob certos céus, de facto.


2. O guarda-chuva da rapariga contorceu-se ao mesmo tempo que o seu vestido se levantou. O rapaz não tirou os olhos do guarda-chuva, rindo daquela dança. Por isso é que os guarda-chuvas das senhoras são frágeis. 
O resto explica a Rihanna, pode ser?

E também não é por acaso que os homens perdem os guarda-chuvas como se isso, essa distracção, fosse um instinto primário.


3. O homem deste século gosta muito do som da chuva - por aí, em canções, em pequenos textos, o som da chuva, o som da chuva, o som da chuva... E esse som dá-lhe vontade de ouvir certas canções.

O som da chuva dura pouco, portanto, apesar de o homem gostar muito dele.

4. Hoje emocionei-me quando vi um homem a desfazer-se da sua televisão. Chovia e ele estava ali parado, com um impermeável mal recortado de um toldo vermelho, a olhar para o lixo, com a televisão nos braços... 

As maquinas emocionam-me a partir do momento em que deixam de funcionar.

 

António Trindade Vieira

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Um caso de estudo

por cincodiasuteis, em 17.09.14

O treinador e o presidente do Benfica ficaram surpreendidos com os aplausos no final do jogo Benfica-Zenit, depois de uma derrota incontestável. A comunicação alinhou no estranhamento, com A Bola, por exemplo, a escrever isto na edição de hoje: "Um ambiente invulgar na Luz: todos a aplaudir e a cantar, apesar do 0-2. Um caso de estudo."

Um caso de estudo" Admito que sim, e quero ajudar.

Aplausos em vez de assobios.


Devo dizer que não reagi com tanta surpresa (talvez porque tenha sido um dos que aplaudiu no estádio). Só não acontece mais vezes porque o Benfica perde poucas vezes. O apetite de vitórias de um adepto do Benfica é insaciável, mas basta alguma lucidez (que naturalmente falta a um adepto de futebol) para uma pessoa, depois da cólera, começar a pensar, em pleno Estádio da Luz: isto não honra a nossa história, a identidade ganhadora deste clube, mas o mais importante foi feito, estivemos todos aqui, amanhã há mais.

Por vezes uma casa precisa de barulho, gritaria, mas outras vezes precisa só de uma voz que diga: "o teu pai traiu-me, isso afectou as nossas vidas, mas agora estamos aqui, e sentimo-nos todos bem por estar em casa. Amanhã há mais." (Sabendo, claro, que uma traição é coisa mais amiga do ânimo leve que uma derrota do Benfica)


Um exemplo que talvez ajude no "caso de estudo". Eu não fumo, mas vou para o Estádio da Luz a pensar no cheiro a tabaco, com a expectativa de inspirar toda a nicotina que paira por ali. Adoro o cheiro a tabaco, mas só no estádio da Luz. Ninguém me convence de que os cigarros fumados pelos benfiquistas são feitos com as sobras de relva coladas às chuteiras dos jogadores depois dos jogos - sacode-se a bota do Gaitan, seca-se a relva e enrolam-se uns para todos. Mais divino que tóxico, portanto.


Perdoem-me o lugar-comum, mas o Benfica (qual futebol! fenómeno socio- quê? BENFICA!) leva-nos mesmo a fazer coisas surpreendentes - bem mais do que aplaudir uma equipa campeã depois de uma derrota.


Não há situação durante a qual me faça tantas vezes a pergunta: o que é que eu estou a fazer? Os gritos, as pragas, os gestos, a cara toda da cor das camisolas e com mais solução de ureia e cloreto de sódio na cara (António Gedeão e Freitas de Lobo são as influências aqui) do que os próprios rapazes que correm lá dentro.

O que é que eu estou a fazer? Mas é uma pergunta que depressa se dissipa; exige-se antes perguntar, por exemplo, o que é que o Artur está a fazer.


Não adianta, espíritos incrédulos, fazer mais descrições. Vão à Luz!

 

António Trindade Vieira

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