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Fama

por cincodiasuteis, em 22.09.14

Não quero cair na piada fácil – nem na difícil, nem em nenhum tipo de humor - porque acho que o assunto é demasiado sério: a casa dos segredos voltou.

 

Este mundo que se apresenta na televisão, onde a fama ocupa o lugar do saber, faz a minha cabeça andar à roda; tornou-se tudo passageiro e pornográfico, o eterno morreu nos risinhos da ignorância. As pessoas são mesmo assim? A minha geração é isto? A televisão abana a cabeça em aprovação, dão-lhes dinheiro para a mão e deixam que se embebedem no estrelato. É assim que se faz negócio e se anima o povo no meu país e foi assim que eu perdi quase três horas da minha vida:

 

Há um Luís que se ri a dizer:

 

 “Desgostos amorosos? Isso só acontece nos filmes.”

O Luís quer ser rico e só quer é fama. Quando a fama acabar, espero que não tenhas tipo aqueles desgostos dos filmes, ‘tás a ver?

 

Há um Bruno que compara mulheres a carros:

 

“Se tivessem um Ferrari, um Porsche e um Mercedes na garagem só andavam com o Ferrari?

Curioso ou não: não há um carro que ele tenha na garagem que não arranque os cabelos para o ter – uma metáfora entenda-se. O Bruno ainda se queixa, coitado, de que um desgosto amoroso lhe congelou o coração. Imagino o motivo: de meter tantas mudanças deve-se ter esquecido que ainda existem carros cuja marcha atrás se engata no mesmo sítio da primeira.  Faz gáudio de conduzir três carros ao mesmo tempo: um loiro, um moreno e um sabe-se lá de que cor, mas ficava-lhe melhor um monovolume maneirinho.

 

Há uma Cristiana que deixa rasto de fogo pelos sítios onde passa sem saber o que é ser enigmático:

 

“Palavras difíceis não são comigo.”

Palavras dificeis ou só palavras, Cristiana?

 

Há um Odin que diz não seguir modas no momento em que se apresenta como concorrente da casa dos segredos...

 

Há vários otários, no fundo. E eu sou um deles por ter visto a casa dos segredos e chegar à conclusão de que este mundo não é para mim. É para eles que têm coragem de ser assim: chocantes, transparentes como o cor de rosa, sem imaginação, nem vontade de deixarem de ser mais uns bêbedos na festa. Não achei piada. Aliás fiquei triste e deprimido porque ainda acho que a minha geração é melhor do que isto. Caras bonitas vão e vêm todos os dias, a fama é uma cena eterna. 

 

Pedro Ramalhete

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O Mergulho ou o espaço em volta

por cincodiasuteis, em 01.09.14

Por vezes, quando a água salgada me apanha os joelhos vêm-me aqueles versos à cabeça

 

My body is a cage

That keeps me from dancing with the one I love

But my mind holds the key

 

Deixo o corpo estendido em pensamentos antes de me atirar para o mar e durante segundos sou um espírito irrequieto com a água a invadir-me, aos poucos, o corpo. Depois quando mergulho quebra-se a distância  que estabeleci com o oceano. Um bom mergulho sucede um reflexo do dia que tiveste, da vida que levaste, das coisas que deixaste de sentir por receio, no fundo, sucede o momento em que aceitas que o mar te engole. Quem faz férias de praia ou de piscina (eu aconselho o mergulho no mar por ser mais profundo) há-de entender, de alguma forma, que o “espaço” antes de um mergulho é um ritual cheio de introspecção e retrospectiva; o mergulho é uma libertação por nos ser tão leve carregar o nosso mundo dentro de água. O que custa, de facto, é levá-lo às costas até ao fundo do mar onde os versos fazem sempre sentido

 

 

Set my spirit free

Set my body free

 

Vêm e vão como pensamentos contra as rochas; as ondas passam por cima do meu corpo, agora em modo videoclip à flor da pele onde o riff é mais importante do que a letra, e apagam o rastilho de ideias quem vem desde areia. Bracejo, nado, rodopio: são tudo coisas que faço por querer pertencer ao mar.

No fim, deixo que o calor seque o meu corpo ajudado por uma brisa que soa a Bowie, mas é só vento. Olho o espaço em volta e há sereias a mergulhar com o sunset no pensamento e balofos que brincam ao faz de conta com as criancinhas que se mijam de tanto rir. Fora de água tudo é chato: é assim a vida e os meus pensamentos

 

- Aquilo ali é Marrocos ou o horizonte? É que se for Marrocos eu tenho uma grande visão.  

 

Se eu soubesse o que sei hoje tinha dado outro mergulho. 

 

Pedro Ramalhete

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Muge em Festa, um retrato

por cincodiasuteis, em 13.08.14

Numa altura em que a televisão usa ininterruptamente e com orgulho as festas populares para entreter o emigrante e o tuga, eu próprio procurei, neste fim de semana, aventurar-me numa experiência do género, em Muge.

 

Muge é uma vila ribatejana onde para lá chegar é preciso aceitar que a cidade acaba. Rodeada por planícies longínquas e recheada por ruas a lembrar uma América interior, monta-se a festa no Rossio - esta zona peca pela demasiada poeira que se levanta à medida que o pé aquece. Na gastronomia: há pampilhos, o doce cujos recheio e massa se desfazem na boca apaixonadamente; as bifanas do Silas, que se não fosse pelo preço exorbitante seria a bifana mais extravagante e arriscada – pela positiva – que se faz nas redondezas de Lisboa; o pão com chouriço é o habitué destas festas, assim como o churro, a fartura e o algodão doce e nenhum deles falhou; a cerveja chega com o cheirinho dos grelhados e funcionam sem desiludir, mesmo que falte aquele toque divinal do Fernando (a tasca que serve as melhores cervejas da região).

 

Em termos de show: depois de um domingo entediante com a actuação balofa dos Chaves D’Ouro (parecia mais uma lição de marketing do que um concerto pimba) e de um fogo de artificio extenso e bocejante, chegou a segunda-feira das Cavalhadas e de Sergio Rossi. As Cavalhadas duraram tempo a mais e aborreceram as três ou quarto pessoas que assistiam, mas pela tradição o meu povo faz tudo. Para quem não sabe: Sergio Rossi é irmão de Romana, sobrinho de uma das Doce, aos treze anos já estudava música e desde muito cedo compõe, escreve e interpreta as suas músicas e com este percurso todo já tem quatro álbuns editados - informação dada em pleno concerto. O espectáculo deste "Delfim do Pimba" devia ter sido maior do que foi, devia ter arrebatado os corações poucos exigentes das ribatejanas solteiras e nem para isso serviu. Rossi espalha-se ao comprido porque prefere imitar a criar: reduz-se a uma cópia ranhosa dos artistas de sertanejo, deixa-se dominar pela veia azeiteira em vez de lhe dar frescura e novidade e, como se não bastasse, é cheio de si. Eu tenho muito pouca paciência para estes artistas que se têm em muito boa conta, quando no fundo desvalorizam o seu próprio repertório, ao tocar três vezes a mesma música durante o show, e assassinam clássicos sem arrependimento - que raio foi aquela versão de Sempre que Brilha o Sol?   

 

Numa breve nota, quero dar os parabéns à associação de festas de Muge de 2014 pela coragem e empenho para contornar a situação frágil que a comissão de 2012 deixou. Só lhes peço que em futuras festas, poupem o público a discursos enrolados, extensos e politicamente populistas, onde as palavras se confundem com a ira. 

 

No computo geral, destaco: a hospitalidade das boas pessoas, a beleza natural da vila e a sua disposição arquitectónica que pisca o olho à organização singela e minimalista do estado novo. Pela negativa: achei tudo demasiado pimba e demasiado morno. Faltou um artista que soubesse puxar pelo público e um trabalho visual mais ambicioso.  Cinco estrelas em dez.

 

Pedro Ramalhete

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Robin

por cincodiasuteis, em 12.08.14

Isso de morrer é diário. Acabamos todos por sentir a perda e todos os dias alguém tem de passar por isso. Ontem foi a vez da minha geração perder alguém muito querido ao seu imaginário infantil. O Robin Williams morreu a chorar.

 

Era um actor exagerado, espampanante e se o realizador não fosse bom havia a tendência de dissolver o filme naquela histeria toda. Nunca me deixei deslumbrar por ele, mas havia qualquer coisa de magnético, comovente e enternecedor nos filmes dele – e por mérito do próprio lá nos envolvíamos naquelas personagens. Sabiam entreter aquelas personas de Williams, que pareciam trabalhadas para ser uma constante transversal a todos os seus filmes: espelhava valores familiares, proclamava o heroísmo através da trapalhice e a irreverência era performativa e fazia rir estupidamente porque é chato o contrário. Agora sabemos que aqueles olhos falavam de tristeza. Sempre me deu a ideia de que ele era um miúdo que envelheceu sem crescer e isso só pode ser maldade da ironia: três filmes em que entrou abordam esse tema: no Jack  de Francis Ford Coppola é um miúdo cujo corpo cresce sem parar, em  Hook, a deprimente aventura de Steven Spielberg, faz de Peter Pan e em Jumanji de Joe Johnston é um rapaz que perdeu a oportunidade de crescer porque fica preso num jogo de tabuleiro. Não precisou de crescer, teve o seu tempo e marcou quem teve de marcar. Eu só o conheci a fazer piadas e essa foi a receita nos seus filmes e na sua vida: rir, rir, rir até gastar os olhos.    

 

O que mais mexia comigo era o Jumanji, o mais divertido o The Birdcage e o meu preferido o The Fisher King. A melhor homenagem que lhe posso fazer é recomendar estes três filmes, porque quem não os viu não teve infância. 

 

Pedro Ramalhete

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Isto é (a nossa) Água

por cincodiasuteis, em 11.08.14

No meu país é a cerveja que descola as cabeças da sonolência

 

- Se a casa cair, deixa que caia. 

 

Mais uma e já lhe perdeu a conta; isto não é água, é cerveja a um euro. Passam os anos espalhados pela região ou pela tasca da aldeia a falar da bola e da gaja da Playboy e no verão vêm colmatar o vazio com a barriga cheia. Mais uma e agora não sabem quantas é que desceram, mas o que interessa? Vai subir ao palco a banda principal e o bailarico não aquece de outra forma. Ainda falta aquecer os foguetes por vir e um pão com chouriço para almofadar mais uma loira. A tasca, para o bem do homem, faz fronteira com a igreja

 

- Até o padre ajudou.

 

e pela apoteose embebem-se nas questões fundamentais para o próximo gole

 

- Mas quem será? Mas quem será?

 

Os passinhos tortos vêm responder às perguntas: "não estamos preparados para estas danças em cadeia que não acolhem boas ideias." Quando faltam boas ideias olha-se o céu. O fogo parte-se lá em cima para ligar os homens da aldeia, que dormem na festa, de volta ao amanhã de levantar cedo para comprar o pão. Estão a pensar voltar a casa

 

- Ouvi um passarinho às quatro da madrugada.

 

porque ouvem aquela voz que pede aconchego. Levam um último copo à alma para sentir o toque divino e assim são grandes, os melhores

 

- Quem é o gostosão daqui?

 

Ninguém o é. Todos queriam que a barriga não fosse a vida, mas ela carrega os problemas - é o reflexo do portador. A festa só se apaga porque lhe viram as costas num corpo em queixume

 

- Ai é amor....

 

Num momento, prestes a serem longe, os homens sentem a falta de algo: mais uma cerveja. É só um euro. O corpo deixa-se ir na sonolência do dia de amanhã. Agora é só acordar e deixar que seja água.

 

Pedro Ramalhete

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Man on The Moon

por cincodiasuteis, em 08.08.14

Fico quase sempre sem saber o que dizer quando me perguntam qual é o filme da minha vida. Qual é? Sei lá. Posso dizer um, dois ou mil que as respostas, muito provavelmente, mudam amanhã,  já para não falar dos filmes que possa dizer e me despertam um arrependimento instantâneo. Mas hoje vou arriscar:  se me perguntarem agora escolho - pela a contenção de um genial Jim Carrey e pelo sentimento de “a comédia comeu a vida” - o filme Man on The Moon do Milos Forman.

 

Este filme sai em 1999 - naquela altura em que o Jim Carrey abandonava, da forma mais genial, o estatuto de palhacito sempre em overacting – pelas mãos do checo Milos Forman (Amadeus, One Flew Over The Cuckoo’s Nest) e foi de alguma forma um filme confortável para a minha personalidade. Para quem não sabe este filme é baseado, muito livremente, na vida do comediante/wrestler/actor Andy Kaufman, o homem que desafiou o conceito de entretenimento e puxou todas as fronteiras do aceitável para si. Forman pega nesta personagem e com a ajuda do colosso Jim Carrey põe em constante conflito realidade e ficção, e cria o seu próprio “contado ninguém acredita.” Pode-se dizer que este filme é uma farsa constante, um ultraje e por isso torna-se numa comédia, mas tal como um filme sobre o racismo não é necessariamente racista, este filme é uma comédia sem ser necessariamente engraçada. A graça (no sentido espiritual aqui) deste filme está na forma como aquele homem criou uma noção de espectáculo, ancorada na surpresa e no choque, e a partir daí deixou-se viver segundo essa noção, para virar toda a atenção do mundo para si e ser a super-estrela que sempre quis ser. Tudo tinha de ser fulgor, tudo tinha de ser muito maior do a sua existência. O público dele não podia ir preparado para o que ele ia dizer senão ele aborrecia-se. O filme conta essa história: do homem aborrecido com a vida que se deixou absorver pelos seus sonhos e ambições e que um dia decidiu ler, noite fora, O Grande Gatsby para um auditório que esperava um show de stand up normal. Digam-me lá se isto não merecia uma canção dos R.E.M?

 

Hey Andy did you hear about this one? Tell me, are you locked in the punch?
Hey, Andy are you goofing on Elvis? Hey, baby. Are you having fun?
If you believed they put a man on the moon, man on the moon.
If you believe there's nothing up my sleeve, then nothing is cool.”

 

É de facto um filme de uma vida seja para o espectador, seja para quem participou nele. O que me fascina mais no filme não é o facto de ser um biopic sobre uma figura que admiro, mas sim por desafiar o próprio conceito de biopic e arriscar ser uma fantasia em modo matrioshka - mito dentro de mito, dentro de mito –, que  coabita exemplarmente com a vida de um homem vulgar, com problemas normais e ambições maiores do que uma vida. Fica para a posterioridade a última cena, onde aquela pinguinha de ironia (a morte por fraude depois de uma vida a ser a própria fraude) vai desaguar num dos finais mais comoventes do cinema: aquele belo funeral:  

 

“Now everybody sing: 'The world is such a wonderful place to wander through...'"

 

Se calhar vou apagar este texto, afinal o filme da minha vida é o Velvet Goldmine

 

Pedro Ramalhete

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A Melga

por cincodiasuteis, em 07.08.14

Agora é só um ponto vermelho ao lado da minha cama. Um ponto sozinho, feio, frio e sem graça nenhuma, que nem em vida era apetecível ou gracioso. Pelo muito barulho que fazia não a queria perto, não a queria em cima de mim. Mas é inevitável, num dia de verão, não ouvir um zumbido que quando ataca deixa sequelas. Hoje, mesmo picado, acordei com um sorriso de vitória: “devo tê-la morto sem saber como fiz.“

 

A melga, nós ainda não percebemos, mas é o nosso verdadeiro inimigo, a grande besta. Vem sem avisar e voa baixo e de mansinho para não alertar o nosso radar. É pequena e matreira, o que lhe dá facilidade nas investidas silenciosas, e pior do que tudo: deixa uma comichão exagerada, daquelas que nos faz perder o controlo sobre nós mesmos – coça, coça, coça até sangrar. Não mete medo, não enoja, mas pelo nome percebemos logo que só serve para ser uma sarna e estragar uma noite de bom sono. Podemos até empestar a casa de Dum Dum e besuntarmos o corpo de repelente que elas aparecem na mesma, não dão sossego. Às vezes estou em crer que existe um exército infindável delas atrás dos meus moveis, mas isso deve ser superstição, porque pragas destas são incomodativas e eternas, ao contrário de uma chuva de sapos. É um bicho sem razão de ser, que se enche de sangue noite fora e quanto mais adormecidos estamos mais gorda ela fica - para além de chato é um bicho cobarde. Acabemos pois com este bicho insuportável em cinco passos: 

 

  1. Abram as janelas. 
  2. Baixem os estores. 
  3. Perfumem a casa com Dum Dum q.b.
  4. Reduzam a iluminação ao mínimo.
  5. Rezem para que resulte.

 

Se a vítima for corajosa o suficiente nem precisa desta receita, basta esborrachá-la contra a parede com a força de um polegar - como eu fiz esta noite. Hoje dorme, junto a mim, esse troféu ou cadáver de insecto para que se recorde - sempre que por ali passar uma melga - que quem se mete com os seres humanos está tramado - não é verdade, Anne Frank?

 

 

Pedro Ramalhete 

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Escatologia

por cincodiasuteis, em 06.08.14

Digo, desde já, que este assunto é demasiado delicado. Peço ao leitor compreensão e, sem querer chocar, vou asneirar o mais que puder e ser arrogante, talvez no fim seja desatinado. Contudo, não se pense que isto é uma anedota.

 

Estão três pessoas à frente de uma televisão: um coprólogo, uma actriz de revista e um miúdo fascinado pelo apocalipse. Sim, são uma família. Como qualquer família normal, comem em frente ao televisor. Não há diálogo possível, pois assiste-se ao fabuloso programa “Bora lá Marina”:

 

“Cócó xixi, pilinha pipi!”.

 

Os graúdos riem-se; o miúdo, envergonhado, vai para o quarto a correr da forma mais melodramática que se possa imaginar. Em pleno trote disléxico, pensa: “Eu sei que trabalham ambos no meio de merda, mas rirem-se da Marina Mota ofende-me. O que é que eu fiz para merecer isto?”. Ter um pai que passa o dia a estudar excrementos e uma mãe que ganha dinheiro a bracejar “manguitos” para uma plateia de imbecis é difícil de encaixar, especialmente para um miúdo que deprime com tudo e com nada. Este mundo, conservador, ainda não aceita estas profissões: “olha, lá vai o filho do gajo que é perito em escatologia! Devia ter vergonha.”. Imagino o sofrimento de um filho cujo pai tenha de ganhar dinheiro a estudar fezes humanas. Deve ser uma merda (demasiado escatológico?).  

  

O puto nunca leu a Bíblia, a teologia pouco lhe interessa. No entanto, não há pessoa mais devota do que ele quando se fala sobre o fim dos tempos.“Gostava de ler o Apocalipse”, pensa ele, preso no seu cubículo intelectual. Estes pensamentos aleatórios penetram-lhe na cabeça enquanto ouve, lá ao longe, a voz estridente de Marina Mota: “Feitiozinho de merda!”

 

No cimo da prateleira está uma Bíblia poeirenta. A curiosidade invade o rapaz; pega o livro pelo fim: “Isto é mesmo bom!”, exclama completamente extasiado.  Devora uma página atrás de outra ao mesmo ritmo que os senhores seus pais arrotam o alfabeto, em uníssono (escatologia também é diversão). Escusado será dizer, que a interpretação de um miúdo de treze anos da Bíblia é semelhante àquela que Charles Manson fez da música Helter Skelter. Mesmo assim, penso que  adorar o fim do mundo faz mais psicopatas do que a música dos Beatles. Ah! Já me esquecia. O humor de revista -Marina Mota, Carlos Cunha e o resto da corja -, cujas frases acabam sempre em alho e ona, também é um catalisador para a psicopatia (escatologia também é miséria).

 

No fim das suas leituras, o filho armado em Bruce Willis numa sequência de Pulp Fiction, empunha uma espada de samurai, que estava, tal como a Bíblia, no cimo da prateleira. Num bilhetinho escreve, toscamente: “toda a merda merece um apocalipse” (escatologia também é loucura). Qualquer pessoa, com dois dedos de testa, que leia isto percebe o que está para acontecer. Escalpes a voar, sangue a jorrar como se de um repuxo se tratasse e vísceras na parede. Inspirado nos mais ferozes filmes do Tarantino, cria-se um cenário escatológico. O miúdo teve o que queria: pôs termo ao sofrimento alegre da sua família e teve o seu próprio apocalipse (escatologia também é moral).  

 

Agora, toca a ir ao dicionário ver o que quer dizer escatologia. 

 

Pedro Ramalhete

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O País está Mal

por cincodiasuteis, em 05.08.14

Um banco entra em colapso numa era de empreendedores, que construem um futuro preguiçoso com os olhos no passado. O retro é chique, o novo pouco ou nada existe; fazem-se empresas de cestas de verga para piqueniques e de toucas para a praia. Isto é tão pouco futuro e tão bem enfeitado, que só através de um banco cheio de crápulas é que o povo conhece a descrença.

 

O Vicente veio à rua ver se a manifestação já tinha acalmado; não via a hora de ver as ruas, largas e iluminadas, desabitadas de qualquer pestanejar de uma multidão, que não conhece a sua própria revolta. Diz-se muito, grita-se o dobro; uns correm para um lado, outros pontapeiam caixotes de lixo. Com tanta gente a dizer tanta coisa como é que a multidão pode ser só uma?

 

“A crise! A crise! Um banco de banqueiros coxos e uma sociedade que transforma tudo em sal porque só sabe olhar para trás. O Horror!”

 

Pensou muito se este era o seu lugar, o seu país. Preferia se calhar viver numa faixa de dois países, em guerra milenar, onde o conflito e as causas são a sério. Mas as causas devem ser sempre sérias seja num país destruído, seja num país à beira de tal. Nesta terra à beira-mar plantada nada se destrói e nada – embora se diga que sim - se empreende; está tudo na ruína de ideias e o Vicente com os bolsos rotos de dinheiro. Inquieto e sem ter onde cair morto, Vicente ficou-se a adivinhar um retrato de uma rua vazia, cheia de pessoas a jantar nas suas casas. Cada casa com o seu eco, cada pessoa com o seu problema: “nunca havemos de chegar a lado de nenhum porque ninguém percebe porra nenhuma do que estou a dizer.” As ruas vazias servem para a ressaca da multidão, assim nascem os gritos solenes que ninguém leva a sério. Estas ruas vazias pertencem a muitos ouvidos moucos que dramatizam o passado e se revoltam porque nunca tiveram a vida que queriam. Fecham-se assim, os que se revoltam e os que mandam, num egoísmo atroz que faz mal à nação do Vicente - até ele próprio se torna egoísta por perder tempo a pensar se este país é mesmo dele.

 

Mandam-no emigrar pelo trilho da calçada, naquela rua vazia. O futuro não existe ou parece projecção do passado, o presente sem imagens bonitas é um trilho ardiloso. Por decidir, Vicente ficou prostrado ali, a descobrir para que lado deve andar um país.  

 

Pedro Ramalhete

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Tacuara

por cincodiasuteis, em 04.08.14

As pessoas na novela - não dizem nada de jeito – parecem chatas e ocas e se não bastasse fazem imenso barulho; num dia como o de hoje estas coisas para além de intoleráveis, multiplicam a irritação e dão dores de cabeça. Vamos então desligar o televisor e fazer um minuto de silêncio, pois neste dia quatro de Agosto de dois mil e catorze o Sport Lisboa e Benfica perdeu o pé esquerdo de Óscar Cardozo.

 

 

[Minuto de Silêncio]

 

 

Aposto que mais de metade dos portugueses não sabem que Assucion é a capital do Paraguai, contudo não há um que não saiba que o matador veio de lá. Despedimo-nos sete anos, cento e setenta e dois golos, muitas alegrias e umas quantas birras depois do, ao que parece, goleador, coração mole e benfiquista: Óscar “Tacuara” Cardozo. Foi-se embora hoje e pelos vistos não demorou muito até aprender turco. No fundo, nós já sabíamos que ele era assim: dedicado ao seu clube, mesmo que as pernas às vezes não acompanhassem o coração - tinha uma mística enorme mesmo naqueles jogos em que só apetecia desmanchá-lo à porrada. Recordemos as cento e setenta e duas razões que ele nos deu para gritar até ficarmos sem voz e alertemos então o clube de Trabzon: "cuidado ele é perigoso." Numa altura, em que a nação benfiquista anda demasiado preocupada com todo este desfalque, eu viro a preocupação para outro lado. Saí Oblak, Siqueira, Rodrigo, André Gomes, Garay e depois? Jogadores sem pátria nascem todos os dias, símbolos só quando Deus beija a terra. Se era bom ou se era mau eu não sei; para mim era o Cardozo e isso fez-me chorar, rir, saltar e estragar uma televisão.

 

Agora vou voltar à novela, porque é triste que a realidade seja assim: sem Cardozo. 

 

Pedro Ramalhete

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