Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Um caso de estudo

por cincodiasuteis, em 17.09.14

O treinador e o presidente do Benfica ficaram surpreendidos com os aplausos no final do jogo Benfica-Zenit, depois de uma derrota incontestável. A comunicação alinhou no estranhamento, com A Bola, por exemplo, a escrever isto na edição de hoje: "Um ambiente invulgar na Luz: todos a aplaudir e a cantar, apesar do 0-2. Um caso de estudo."

Um caso de estudo" Admito que sim, e quero ajudar.

Aplausos em vez de assobios.


Devo dizer que não reagi com tanta surpresa (talvez porque tenha sido um dos que aplaudiu no estádio). Só não acontece mais vezes porque o Benfica perde poucas vezes. O apetite de vitórias de um adepto do Benfica é insaciável, mas basta alguma lucidez (que naturalmente falta a um adepto de futebol) para uma pessoa, depois da cólera, começar a pensar, em pleno Estádio da Luz: isto não honra a nossa história, a identidade ganhadora deste clube, mas o mais importante foi feito, estivemos todos aqui, amanhã há mais.

Por vezes uma casa precisa de barulho, gritaria, mas outras vezes precisa só de uma voz que diga: "o teu pai traiu-me, isso afectou as nossas vidas, mas agora estamos aqui, e sentimo-nos todos bem por estar em casa. Amanhã há mais." (Sabendo, claro, que uma traição é coisa mais amiga do ânimo leve que uma derrota do Benfica)


Um exemplo que talvez ajude no "caso de estudo". Eu não fumo, mas vou para o Estádio da Luz a pensar no cheiro a tabaco, com a expectativa de inspirar toda a nicotina que paira por ali. Adoro o cheiro a tabaco, mas só no estádio da Luz. Ninguém me convence de que os cigarros fumados pelos benfiquistas são feitos com as sobras de relva coladas às chuteiras dos jogadores depois dos jogos - sacode-se a bota do Gaitan, seca-se a relva e enrolam-se uns para todos. Mais divino que tóxico, portanto.


Perdoem-me o lugar-comum, mas o Benfica (qual futebol! fenómeno socio- quê? BENFICA!) leva-nos mesmo a fazer coisas surpreendentes - bem mais do que aplaudir uma equipa campeã depois de uma derrota.


Não há situação durante a qual me faça tantas vezes a pergunta: o que é que eu estou a fazer? Os gritos, as pragas, os gestos, a cara toda da cor das camisolas e com mais solução de ureia e cloreto de sódio na cara (António Gedeão e Freitas de Lobo são as influências aqui) do que os próprios rapazes que correm lá dentro.

O que é que eu estou a fazer? Mas é uma pergunta que depressa se dissipa; exige-se antes perguntar, por exemplo, o que é que o Artur está a fazer.


Não adianta, espíritos incrédulos, fazer mais descrições. Vão à Luz!

 

António Trindade Vieira

Autoria e outros dados (tags, etc)



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Contacto

cronicasinuteis@sapo.pt